O verdadeiro futebol é o que se desenvolve longe das luzes da ribalta, como veículo de expressão de povos inteiros, como forma de reunir os sentimentos de uma nação, como um mero passatempo ou como forma de escape para milhares de pessoas em situações complicadas. O futebol é o desporto internacional por excelência. Não graças a grandes estrelas reconhecidas em todo o mundo, mas sim porque em qualquer local do mundo é possível encontrar alguém com uma bola nos pés, até nas zonas mais inesperadas do planeta. Esse é o caso do Darfur.

Como surge uma equipa de futebol dos campos de refugiados?

O Darfur é uma região do Sudão, próximo da fronteira com o Chad. Os seus campos de refugiados têm sido a imagem de muitas campanhas de solidariedade internacional. No entanto, no Darfur ainda há espaço para o futebol e para acreditar num mundo melhor.

O Darfur tem a sua própria seleção de futebol desde 2012. Não tem voz na FIFA, mas conseguiu já participar em duas competições com outras equipas mundiais, Em forma de Campeonato do Mundo não oficial, algumas destas competições tornaram-se no local onde muitas seleções estão presentes e que, por vários motivos, não têm visibilidade no futebol internacional. É aqui que a seleção do Darfur, batizada de Darfur United em homenagem ao Manchester United, joga; onde os seus jogadores, provenientes de campos de refugiados, passam da terra dos seus campos de treino para a relva dos estádios da Suécia.

Mas antes de chegar a esse ponto, falemos das origens do Darfur United. Em 2011, a organização não governamental i-ACT pôs mãos à obra para formar uma equipa de futebol composta por refugiados do Sudão. A ideia era coordenar vários campos no Chad, país fronteiriço com o Sudão, de forma a que pudessem ser selecionados vinte jogadores aptos para jogar na Taça do Mundo VIVAcuja celebração estava prevista para junho de 2012 no Curdistão. Em caso de sucesso, os jogadores do Darfur enfrentariam equipas como Norte do Chipre, Occitania, Sahara Ocidental ou Zanzibar, nenhuma destas presentes em qualquer competição oficial.

Por fim, foram reunidos 16 futuros futebolistas, os primeiros 16 futebolistas da seleção do Darfur. Formada a equipa, procurou-se um treinador. O eleito foi Mark Hodson, um diretor técnico norte-americano com alguma experiência na liga local do seu país de origem. E aqueles dezassete homens eram suficientes: O Darfur United já podia defrontar-se contra outras equipas do mundo. Aquelas pessoas iam trocar as suas tendas dos campos de ACNUR pelas botas de futebol. O objetivo era fazer do Darfur um sinónimo de esperança.

Darfur United: o que significa para eles

"O Darfur United não é apenas uma equipa de futebol. Representa milhões de pessoas do Darfur", explica Mahamat 'Iggy' Enigy,um dos futebolistas que participou no torneio do Curdistão. "Darfur United é um movimento para levar esperança, diversão e inspiração às pessoas deslocadas do Darfur. Somos a voz de um povo que tem passado doze anos isolado em campos. Acredito que o futebol pode trazer-nos a paz".

A ideia de representação ganha mais força do que nunca se pensarmos nas diversas origens dos futebolistas do Darfur United. A diversidade étnica definia a equipa. Muitos jogadores não falavam o mesmo idioma, não partilhavam as mesmas tradições e não confessavam os mesmos rituais religiosos. Além disso, a equipa foi construída com homens oriundos de diferentes locais. "Vínhamos de campos de refugiados ou de tribos diferentes. Mas agora somos todos Darfur United", diz Abdelbassid Oumar, também membro da equipa que participou na taça VIVA. No torneio, simbolizaram a união e coesão independentemente das suas diferenças.

No total, foram nove as seleções participantes na taça VIVA, celebrada no Curdistão, a norte do Iraque: os anfitriões, o Norte do Chipre, Zanzibar (Tanzânia), Provença (França), Occitania (França), o Sahara Ocidental (Marrocos), Tamil Eelam (Sri Lanka), Raetia (Suíça) e, logicamente, o Darfur, estreando-se num torneio que foi organizado pela primeira vez no sul de França em 2006 e que em 2012 celebrava a sua quinta edição. Darfur United foi integrado no grupo C, juntamente com Provença e Norte do Chipre.

Os resultados, como podes imaginar, foram o menos importante. O Darfur United perdeu os dois jogos que defrontou, sofrendo no total 33 golos sem conseguir marcar nenhum. Como é normal, ficou em último no grupo. Isto não os deixou de fora do torneio, já que tiveram a oportunidade de realizar um jogo de consolação com outra equipa eliminada, o Sahara Ocidental. Aqui as coisas estiveram mais equiparadas: O Darfur United perdeu à mesmas, mas só sofreu cinco golos e, mais importante ainda, conseguiu marcar um. O autor deste golo histórico foi Moubarak, ao minuto 46 da partida.

O futebol como motivo de esperança

O Darfur United voltou a casa depois de ser último classificado no torneio. Era igual: o golo marcado frente ao Sahara Ocidental, o primeiro golo da história da equipa, tinha posto o Darfur no mapa. De acordo com Hodson, treinador do Darfur United:

"O torneio oferece aos nossos jogadores e ao seu povo a incrível oportunidade de serem vistos numa plataforma     global, e de viver o lado alegre da vida longe dos campos de refugiados. A experiência do Curdistão proporcionou à equipa uma paixão e as ferramentas necessárias para trazer o futebol de volta aos campos e para trazer diversão e esperança a milhares de pessoas." 

 

Além disso, da vontade de disponibilizar atividades desportivas aos refugiados mais pequenos no Chad, surgiu a Academia de Futebol do Darfur United. Para as muitas crianças da zona, os campos são a única experiência de vida que tiveram. A academia é uma forma de lazer para eles, e também uma forma de desenvolverem hábitos de vida saudáveis, de lhes inculcar o respeito mútuo e de lhes oferecer a oportunidade de conhecer crianças de outras zonas do mundo que fazem o mesmo que elas: jogar futebol. Têm equipamento, foram construídos vestuários e zonas comuns e foram criados campos onde se pode jogar. A participação é ainda mista, promove-se a participação de meninas e de mulheres, para que o futebol não esteja apenas destinado aos homens.

Neste sentido, a Academia de Futebol do Darfur United tem um papel fundamental, promovendo o futebol e oferecendo ferramentas para que as crianças o pratiquem.

Do Curdistão à Suécia: a última aventura do Darfur United

Desta forma, o futebol transformou-se num veículo de expressão de de diversão para muitos refugiados do Sudão, além de um motivo para celebrar. A experiência teve continuidade este ano, na Taxa do Mundo ConIFA. Aqui, em outra reunião de seleções internacionais que não têm representação nos organismos oficiais, estiveram presentes algumas das seleções que estiveram também na Taça VIVA, além de outras novas como Ossétia do Sul e Abjazia (Geórgia), Condado de Nice (França), Padania (Itália), a Seleção da Lapónia (países escandinavos), a de Nagorno-Karabakh (Azerbaijão), a Seleção do Povo Aramaico e, por último, a da Ilha de Man (Inglaterra). Darfur United ficou inserido no Grupo 3, em conjunto com Padania e Ossétia do Sul.

Desta vez o cenário era diferente. As partidas tiveram lugar na Suécia, na localidade de Östersund, para muitos dos futebolistas do Darfur a experiência foi inesquecível. Não é à toa que era a primeira vez que viam um campo de futebol de relva natural. Em todo o caso, a história foi muito idêntica à do Curdistão: o Darfur United sofreu 39 golos em duas partidas. Ao ser último do grupo, defrontou o Nagorno-Karabakh e Tamil Eelam em duas partidas de consolação, onde sofreu outros 22 golos. No total, em quatro partidas, os futebolistas do Darfur tinham somado zero pontos, zero golos marcados e 61 sofridos.

O certo era que, mais uma vez, todo aquele conjunto de números era irrelevante. Dois anos depois da primeira experiência, os refugiados do Darfur levavam o nome da sua gente, do seu povo, mais longe do que nunca. Como explica Ismail Abdraman, um dos jogadores que este na Suécia: "Esta é uma oportunidade de ouro para o Darfur. Estou muito orgulhoso de fazer parte do Darfur United. Estamos juntos. Estamos unidos."

O orgulho era partilhado por aqueles que estavam a milhares de quilómetros, pelos seus familiares e amigos nos campos de refugiados. Que resultado é melhor do que este, qual a melhor forma de provar que o futebol é um desporto que vai mais além do que acontece no campo de jogo e se insere no campo do simbólico. Por mais golos que tenham entrado na baliza, os futebolistas do Darfur United já tinham ganho antes de começar a partida.